A angústia na clínica psicanalítica e na psiquiatria

Como é do nosso conhecimento, a psicanálise e a psiquiatria são dois saberes diferentes- a psicanálise é um, a psiquiatria é outro e cada uma tem um recorte simbólico e seu corpo teórico-conceitual.(Alberti, 2006).A psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco já se pronunciou há muitos anos sobre o fato do sofrimento psíquico se manifestar, atualmente, sob a forma da depressão. O sujeito deprimido, angustiado, busca desesperadamente vencer o vazio de seu desejo. Sendo assim, passa da psicanálise para a psicofarmacologia, sem dar a si mesmo tempo para refletir sobre a origem de sua infelicidade. Aliás, a psicanálise não consola, não adormece, não acalma e não traz de imediato o conforto provisoriamente proporcionado pela psicofarmacologia.  A psicanálise, mais do que tratar de sujeitos doentes, lida com o mal-estar implicado no viver.

Sigamos Freud (1950 [1892-1899]) em seu Rascunho E: como se origina a angústia, pois ele inicia seu Rascunho relatando que a angústia surge mediante o fracasso da descarga dos produtos sexuais. Freud, a partir de uma série de casos, ficou convencido da pertinência do coito interrompido na etiologia da neurose de angústia: “duas coisas poderiam originar o sentimento de angústia no coitusinterruptus: na mulher, o medo de engravidar; no homem, a preocupação de seu artifício (preventivo) poder falhar” (idem, ibidem, p. 235).

Em Sinopses dos escritos científicos, Freud (1877-1897) assevera que o mecanismo da angústia reside no desvio da excitação sexual somática do campo psíquico e no consequente emprego anormal dessa excitação. Em seguida ele menciona: “a neurose de angústia é a libido sexual transformada” (idem, ibidem, p.241).

Faz-se necessário lembrarmos que Freud (1950[1895]), em Projeto para uma psicologia científica, apresentou o caso Emma, investigando sua fobia de lojas. Emma relata que não pode entrar em lojas, porém essa ideia permanece sempre em sua cabeça.Conta que, aos dozes anos, saíra correndo de uma loja onde entrara sozinha, porque se deparou com a fisionomia de riso dos vendedores. Após algum tempo, recorda outra cena em que, aos oitos anos, fora comprar doces em uma confeitaria. O fato foi que o proprietário da confeitaria apalpara seus órgãos genitais, por cima da roupa. Sendo assim, ela se recrimina por ter voltado, apesar disso, mais de uma vez a confeitaria. Freud constata que o riso dos vendedores na cena mais recente, porém narrada em primeiro lugar, a fez lembrar-se do sorriso do proprietário da confeitaria. Essa lembrança despertou o que ela seguramente não fora capaz de experimentar na primeira ocasião: uma liberação sexual que se converteu em angústia. Devido a essa angústia, ela temeu que os vendedores da loja pudessem repetir o que já lhe havia acontecido.

Podemos dizer que, em psicanálise,as neuroses de angústia vão compor o quadro das chamadas neuroses atuais, próximo da neurastenia e da hipocondria, sendo afecções associadas à vida sexual do sujeito.

Além disso, observamos que para Freud (1895[1894]), a sintomatologia da neurose de angústia envolve vários sintomas. Destacaremos apenas os sintomas que compõem os chamados “ataques de angústia.” São eles: distúrbios respiratórios, tremores, calafrios, acessos de fome, diarreia sobrevindo em acessos, vertigem locomotora, etc.

Segundo Leite (2011), a definição freudiana dessa modalidade neurótica se assemelha ao que é designado pela psiquiatria contemporânea de transtornos de ansiedade, que abrangem os ataques de pânico e a ansiedade generalizada. O fato é que, a partir do século XVII, devido à disparidade da linguagem médica e aos critérios de diagnóstico usados nos diversos países, fez-se necessário criar um sistema único de classificação. Essa ideia deu origem à Classificação Internacional de Doenças, conhecida pela sigla CID, atualmente em sua décima versão. No entanto, em 1952, a CID foi avaliada como inadequada para a clínica e as pesquisas. A partir daí, a APA, American PsychiatricAssociation sugere uma nova classificação para os distúrbios mentais: o American PsychiatricAssociationDiagnosticandStatistic Manual of Mental Disorders (DSM). Então, nesse momento o modelo se inverte e o DSM passa influenciar a CID e toda a psiquiatria mundial.(PAOLIELLO, 2012).

A esse respeito, abriremos aqui um parêntese para ressaltar resumidamente a história do DSM.

A primeira versão do DSM, ou seja, o DSM-I de 1952, teve como marca a noção de “reação”, termo que indica o fato de que a psiquiatria, à época, percebia a doença mental como uma reação aos problemas da vida. Como indicam Russo & Venâncio (2006), além da expressão acima, podemos considerar o uso frequente, ao longo do manual, de expressões como “conflito neurótico”, “mecanismo de defesa” e “neurose”.

Porém, no DSM-II, em 1968, a noção de reação perdeu o seu valor e surgiram as influências dos pesquisadores em psiquiatria biológica.  De fato, nas duas primeiras versões do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM I e II), a nosologia da psiquiatria ainda era fundamentada na psicanálise. Somente com a publicação do DSM-III, em 1974, ocorreu uma radical modificação na classificação psiquiátrica.  A classificação visa ser composta por diagnósticos descritivos totalmente comunicativos e empiricamente verificáveis. Todavia, houve uma discussão sobre a manutenção, ou não, do termo “neurose”.

Voltemos ao tema que nos interessa: a angústia. Foi na terceira revisão do DSM que ocorreu a importante substituição do conceito de neurose de angústia pelo de transtorno do pânico.  De fato, a transformação presente no DSM-III, como dito anteriormente, atingiu a categoria da “neurose”, mas o termo foi mantido entre parênteses e ao lado de algumas ressalvas. Esta vitória dos psicanalistas, parcial e fictícia, foi de curta duração. Pois, na revisão seguinte do manual, ou seja, no DSM-III R, publicado em 1987, a categoria “neurose” foi definitivamente abandonada.

Ao que tudo indica, a partir da publicação do DSM-IV (1994)houve um aumento imediato do número de diagnósticos ocorrendo paralelamente à produção de novos medicamentos.(RUSSO & VENÂNCIO, 2006). Para tanto, percebemos o grupamento das “neuroses” dissolvido e distribuído em grupamentos diversos e discretos.

Dando sequência aos fatos, no ano 2000 o DSM-IV foi revisado (DSM-IV-R) e atualmente o DSM-V está sendo planejado e preparado para publicação.

Em relação à ansiedade sublinhamos que, a classificação dos transtornos de ansiedade foi modificada desde a primeira edição. Desde então, no que se refere à ansiedade, verificamos que a psiquiatria tende a classificá-la, como normal ou patológica.

Vimos que a exclusão da neurose de angústia foi uma opção política, pois nesse momento a psiquiatria fez desaparecer não só o sujeito do desejo, mas o sujeito que faz parte de toda história, seja ele da psiquiatria ou da psicanálise.

Gostaríamos de marcar, que não se trata de desconsiderar a clínica psiquiátrica, o que discutimos é: não seria mais produtivo em algumas situações clínicas específicas a psicanálise e a psiquiatria trabalharem juntas em prol do sofrimento psíquico? Seja como for, a psicanálise não pode deixar de reconhecer a anterioridade lógica da medicina em relação a seu campo. Sabemos que Freud nunca deixou de reconhecer as conexões com outros campos de saber, pois essas trazem importantes contribuições para o estudo de processos mentais inconscientes.

Vale ressaltarmos que Freud, em 1916 e 1917, proferiu para um público, tanto de médicos como de leigos, várias conferências sobre Psicanálise e Psiquiatria.Freud (1917[1916-1917]) acrescenta que os médicos só são adversários da psicanálise porque não prestam suficiente atenção no que lhes dizem seus pacientes. Ele os conclama a ouvir esse dizer na esperança de, com isso, diminuir a resistência à psicanálise. Ao abordar esse tema, Freud também coloca que quem se opõe à psicanálise são os psiquiatras e não a psiquiatria. Nesse sentido, pode-se dizer que o presente movimento de desaparecimento das entidades clínicas descritas pela psicanálise dos manuais de diagnóstico (DSM e CID) tolhe a proposta de interconexão entre psiquiatria e psicanálise desejada por Freud.(QUINET, 2001).

Contudo passemos a Lacan, pois foi como psiquiatra que ele se fez conhecer nos meios médicos e intelectuais.Para compreendermos o tema angústia em Lacan, é importante termos em mente a premissa de que o ser humano é caracterizado, desde o princípio, pelo desamparo e pela dependência do Outro. Nesse contexto, sabemos que estamos, desde o início da vida, enlaçados em uma rede de significantes. Eis o que determina a psicanálise. Sendo assim, interrogamos: quando surge a angústia?

Podemos elencar aqui Lacan(1962-1963), em O Seminário, livro 10: a angústia, momento em que ele verifica, através da clínica, que a angústia é o afeto do sujeito, mas é o único afeto que não engana, pois é o afeto que corresponde à queda do objeto a. Diríamos que a angústia não engana,  porque não há negociação nesse momento. Ainda assim, podemos pensar que, verdadeiramente, a angústia é uma falha na fantasia, uma falha no desejo e no campo sexual.

Acrescentamos que, para Lacan(1962-1963), em O Seminário, livro 10,a “angústia não é sem objeto”. No entanto, o que Lacan quer dizer quando faz essa afirmação? Ele faz referência a emergência do objeto a, momento em que falta a falta, ou melhor, falta o desejo. Como ele ensina“a angústia não é sem objeto”, ela tem objeto. É um objeto que comparece de forma invisível, que o sujeito não ouve, não vê e não sente. Nesse mesmo seminário, Lacan também marca a relação essencial da angústia com o enigma do desejo do Outro, destacando no grafo do desejo: “O que o Outro quer de mim?”. Dito de outro modo, o sujeito se interroga sobre o que ele é e o que representa no desejo do Outro.

Para finalizarmos,retomemos Freud, pois segundo ele não havia oposição entre psiquiatria e psicanálise. Longe de se excluírem, completavam-se.Para tanto, a questão é quena década de 1970, por parte da psiquiatria, a categoria neurose de angústia entrou no foco da questão do transtorno de ansiedade. Deste modo, como denominam os médicos, são os ansiolíticos, as drogas de efeito sedativo-hipnótico, que passam a ocupar o cenário social da época.

É possível pensarmos que instituir uma prática para tratamento com base no consenso estatístico de termos respectivos a transtornos, que, por conseguinte, devem ser eliminados com medicamentos, é desistir da clínica feita de sinais e sintomas que ligam a estrutura do sujeito. Logo, observamos que o profissional de saúde, seja psiquiatra, neurologista ou enfermeiro, já não tem tempo para se ocupar do psiquismo, porque, na sociedade liberal depressiva, seu tempo é calculado. (ROUDINESCO, 2000). Não resta duvida que o resultado de uma série de revisões de DSMs, aboliu a própria subjetividade.  Dentro dessa perspectiva, nós, analistas, não devemos recuar, pois a angústia do sujeito vai permitir uma travessia capaz de fazê-lo descobrir suas possibilidades.

A luz do que desenvolvemos até o momento, podemos indagar qual é o lugar da psicanálise?

Em 1926, Freud dizia: “(…)não consideramos absolutamente conveniente para uma psicanálise ser devorada pela medicina e encontrar seu ultimo lugar de repouso num livro de texto da psiquiatria (…). Merece melhor destino. (….)” (idem, ibidem, p.238).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALBERTI, S. A estrutura e as redes. In: Alberti, S. & Figueiredo, A. C. (orgs.) Psicanálise e saúde mental: uma aposta. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006.

FREUD, S. (1895[1894]). A sintomatologia clínica da neurose de angústia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ESB). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996, vol.1.

______. (1877-1897) Sinopses dos escritos científicos do Dr. Sim. Freud , v. 3

______. (1917 [1916-1917]). Conferências introdutórias sobre a psicanálise. Parte III. Conferência XVI: Psicanálise e psiquiatria. In: ESB, op. cit., v. 16.

______. (1926) A Questão da Análise Leiga, v.XX( citação )

______. (1950[1892-1899]). Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. Rascunho E: como se origina a angústia. In: ESB, op. cit. v.1.

______. (1950[1895]). Projeto para uma psicologia científica. In: ESB, op. cit., v.1.

LACAN, J.(1962-1963). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

LEITE, S. Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2011.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

PAOLIEILO, G. A Histeria na contemporaneidade. Trabalho apresentado na preparação para o VII Encontro Internacional FCCL- IPUB – 5 de julho de 2012.

QUINET, A. (Org.).Psicanálise e psiquiatria: controvérsias e convergências. Rio de Janeiro: Rios ambiciosos, 2001.

ROUDINESCO, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

RUSSO, J. & VENÂNCIO, A.T.A. Classificando as pessoas e suas perturbações: a “revolução terminológica” do DSM-III. In: Revista Latino americana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo: v.9, n.3, 460- 483, setembro/2006.

Sandra Chiabi

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