Considerações sobre a História da Histeria Masculina

Este trabalho pretende abordar reflexões sobre o que se passava entre a histeria traumática, nomeada por Charcot, e o momento em que Freud afirma que toda histeria é traumática, não devido ao acidente, mas sim a uma causa sexual. Na sequência, articularemos o trauma sexual, as fantasias inconscientes e o sintoma que são revelados no corpo do sujeito histérico.

Referir a histeria ao sexo masculino, desde Hipócrates (460-377 a.C.), era um escândalo e o debate sobre a histeria em homens começa quando vários médicos se deslocam da Grécia para Roma. O primeiro deles, Areteu da Capadócia, evoca a possibilidade da histeria em homens, denominada de “catoche”, cujas manifestações eram perdas de voz e sufocação (TRILLAT, 1991). Outros médicos também detectaram casos de histeria em sexo masculino.

Propor a histeria ao sexo masculino era uma ideia desafiadora, pois o mundo era dividido da seguinte maneira: homens de um lado e, de outro, as mulheres, as feiticeiras. Os homens histéricos eram designados pelos mestres inquisidores da Idade média como “não conformes”, seres desadaptados, mas não como “loucos” (WINTER, 2001). Observamos que mesmo a histeria permanecendo como uma questão das mulheres, alguns autores estavam de acordo em sustentar a existência da histeria masculina. No final do século XIX, houve a libertação das “demoníacas” e o “enobrecimento da feitiçaria”, assim como os trabalhos de Charcot e Freud que admitiam a ocorrência da histeria em homens. Desse modo, é plausível dizermos que a história da histeria foi marcada também pelos homens e foram eles que fizeram triunfar a legitimação da histeria masculina. O que, sobretudo, nos ocupou ao longo deste trabalho, foi pesquisar,   qual seria o lugar da tão polemica histeria masculina. Partindo desse discurso, consideramos necessário abordar a história da histeria em duas escolas: a de Nancy e a de Salpêtrière.

Constatamos que na escola de Nancy, Bernheim estudou e observou que a hipnose não era condição patológica encontrada apenas em histéricos, sendo a sugestão o melhor caminho a seguir. Para tanto, entendemos que na segunda metade do século XIX, Jean Martin Charcot assumiu a responsabilidade por uma sessão no Hospício de Salpêtrière. Para consumar esse ato, escolheu cuidadosamente seus colaboradores, instalou consultórios, laboratórios de Raios-X, e fazia moldes de gesso. Enfim, fotografava tudo. Perguntamos: por que tantas modificações? Segundo Ellenberger (1970), Charcot queria investigar e estudar a histeria no sentido de diferenciá-la da epilepsia. Para comprovar o que dizia usou o hipnotismo, que foi considerado um escândalo na época. Vimos que Charcot fazia tudo isso no intuito de encontrar uma lesão, pois essa seria prova de uma patologia. Entretanto, ele sofreu várias críticas, como, por exemplo, por parte do seu discípulo Babinski. Para Babinski, a histeria era uma simulação, uma representação e transformou-se em um opositor dentro do serviço de Charcot, sugerindo substituir a histeria pelo nome de “pitiatismo”, para desqualificá-la.

Nesse sentido, perguntamos, mais uma vez: onde se localiza a histeria masculina? Rastreando o estudo de historiadores e autores contemporâneos, localizamos nas lições das terças-feiras apresentações de pacientes homens histéricos. Foi Charcot quem desfez o mito da histeria, mostrando e provando que a histeria era possível em um trabalhador forte e viril e, assim, descobriu que a histeria em homens era mais frequente na classe trabalhadora, pois, segundo seus ensinamentos, o mecanismo da histeria estava presente no sintoma inconsciente. Todavia, com o desenvolvimento das estradas de ferro, começou-se a manifestar uma multidão de traumatizados, provocando perturbações comparáveis às manifestações histéricas de caráter neurológico. De fato, os traumatismos físicos eram considerados consequência das colisões e descarrilamentos dos trens. Mas vejamos o que aconteceu com a histeria traumática na Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos.

Comecemos pela Inglaterra, pois descreveram essa patologia com o nome de Railway Spine. Na Alemanha, quando pesquisada, diagnosticaram-na com o nome de neurose traumática. Os franceses negaram a existência da neurose traumática dos alemães. Nos Estados Unidos, especialmente em Boston, a teoria foi bem aceita, pois acreditavam que a mente deveria sofrer com o acidente, nomeando-a, então, de histeria traumática. Diante de tantas controvérsias, Charcot dizia que a inabilidade desses homens de voltar ao trabalho era frequente na histeria traumática (KELLER, 1995). Cabe destacarmos que Freud presenciou as aulas de Charcot, guardou todo seu ensinamento e deu uma virada teórica nas questões que se referem à histeria traumática conceitualizada por ele.

Freud viu algo de sexual inegável em cada cena histérica e se interessou pela causa. Então, foi preciso retomarmos inúmeras referências sobre a época dos estudos de Freud, sua estada em Paris e sua volta a Viena, onde destacamos sua primeira apresentação de um caso de histeria masculina na Associação Médica de Viena. Essa apresentação deixou marcas na história, pois além de ter sido rejeitada, foi vaiada em consequência dos preconceitos com relação à histeria masculina. Mesmo assim, Freud manteve-se firme em suas observações e conclusões. Para dar continuidade às suas elaborações e diante tantos obstáculos, vimos que Freud questionava ininterruptamente a teoria a partir de sua clinica. Então, Freud segue buscando no discurso das histéricas o que vai do acontecimento traumático até a fantasia, pois essas fantasias condensadas influenciarão na neurose do sujeito.

Desse modo, ele constatou que o trauma sexual infantil é condição de neurose e não se constituía no primeiro tempo da lembrança. Era necessário a intervenção do segundo tempo, no qual o caráter sexual do acontecimento traumático adquiria significação na cena atual, constituindo, dessa maneira, o trauma.

Percebemos que era impossível ir adiante nessa pesquisa, sem nos armarmos de uma teoria fundamental, que é a fantasia. Assim, ocupamo-nos do artigo de 1908, Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, onde Freud faz uma relação entre fantasias e sintomas. Nesse texto, Freud apresenta com detalhes a evolução da fantasia e as possibilidades dessa. Formulamos uma pergunta: como uma fantasia inconsciente que está recalcada pode retornar? O que encontramos como resposta foi que a fantasia inconsciente pode atuar no corpo do homem histérico através de uma conversão, um sintoma, um ataque histérico, lapso, chiste, sonho, sublimação e ato falho. Isso nos ajudou a investigar os sintomas, pois no corpo histérico estes se manifestam através de “relações simbólicas” que são decifráveis por meio da fala e revelam um dizer original, onde o corpo entra fazendo parte dessa história.

Dando continuidade às questões da fantasia na histeria masculina, acompanhamos Freud (1919a) no texto Uma criança é espancada, onde ele faz um percurso bem sucedido que vai da fantasia ao acontecimento traumático.

Verificamos que para nosso objetivo ser alcançado era necessário pesquisar e estudar o trauma sexual. Nesse sentido, constatamos, com Freud, que o trauma não produz seus efeitos imediatamente, mas sim, pela sua ressignificação posterior. A fantasia, ao contrário do trauma, surge como o espectro encobridor, distorsivo e refratário que ao mesmo tempo sinaliza e encobre este referente, o trauma. Portanto, compreendemos que para o trauma não há significante, mas há uma direção, ou seja, há repetição, que insiste em retornar. A partir de então, pudemos avançar porque vimos, dentro do viés da operacionalidade traumática, que o primeiro encontro com a sexualidade é sempre traumático para todos os sujeitos, mas se inscreve de forma diferente para cada um. Assim, a histeria, seja masculina ou feminina, se manifesta no corpo. A histeria, seja ela em homens ou mulheres, é corporal. Nesse sentido, o adjetivo “masculino” ou “feminino” é totalmente dispensável. Deste modo, o enfoque subsequente refere-se à clínica lacaniana da histeria masculina.

Antes de nos referirmos à posição de Lacan, relembramos que apesar de Freud ter salientado com mais frequência a histeria em mulheres, ele abordou ao longo de sua obra a histeria em homens. Além disso, ele se autodiagnosticou “histérico”. Então, em uma Correspondência na Carta 67 em 14 de agosto de 1897, Freud (1950[1892-1899], p. 309) revela: “O principal paciente que me preocupa sou eu mesmo. Minha leve histeria (…)”. À luz do que desenvolvemos até o momento, vimos que a psicanálise nasceu com Freud, em especial a histeria. No entanto, Jacques Lacan (1901-1981) dá prosseguimento à investigação da psicopatologia, abordando a histeria de diversas maneiras em seu ensino.

Assim sendo, recorremos ao caso de histeria traumática trazido por Lacan (1955-1956) em O Seminário, livro 3: as psicoses. Lacan (ibidem) faz comentários sobre um antigo caso de histeria traumática em que a fantasia inconsciente de gravidez e de procriação surge em primeiro plano, ainda que se trate de um condutor de bonde. Lacan realça que se trata de uma observação que se deve a Michel Joseph Eissler, um psicólogo, que narra a história. Recordemos o caso em questão: o homem cai do bonde e apresenta sintoma conversivo de dores lombares que irradiam, subsequentemente à queda. Essas dores constituíam-se em enigmas, pois os exames não encontravam justificativas para tanto. Lacan narra que foi por meio dos exames radiológicos que se situou o verdadeiro enigma da subjetividade. Em outras palavras, colocaram o sujeito sob a mira de instrumentos misteriosos, desencadeando seus ataques. Portanto, os ataques, o seu sentido, a sua modalidade, a sua periocidade, o seu estilo, surgem vinculados de um modo evidente à fantasia de uma gravidez. O condutor de bonde faz um apelo e não encontra uma resposta, mas uma mensagem a ser decifrada. Lembremos que o condutor de bonde conta que um dia pode observar escondido uma mulher que morava próxima à casa de seus pais. Revela que essa mulher soltava gritos intensos, se contorcia, as pernas estavam levantadas e, assim, percebeu que se tratava de um parto. Além disso, viu o médico levar pelo corredor a criança em pedaços. Ao narrar esse caso, o analista percebe o caráter feminizado e participa ao sujeito alguns elementos de sua observação. O próprio condutor revela o que o seu médico disse à sua mulher: “Eu não consigo perceber o que ele tem. Parece que, se ele fosse uma mulher, eu o compreenderia bem melhor” (idem, ibidem, p.200). Ainda, Lacan assinala que o condutor de bonde tem interesse pela procriação de galinhas, no comércio de ovos, e nas questões referentes à botânica. Como entender essas questões?

Em se tratando de histeria masculina, o sustentáculo imaginário do órgão viril vacila em função identificatória, e é aí, na identificação simbólica, que algo não é satisfatoriamente consistente para que a passagem de ser o falo para ter o falo se faça sem vacilações. Em face de tudo isto, podemos pensar que todos esses dados, mesmo que diferentes, se somam como vestígios inconscientes da questão histérica: o que é uma mulher?

Voltemos a Freud, porque ele já realçava em seu texto de 1908 Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, que o histérico sofre por estar preso à sua fantasia, não consegue ceder nem a uma, nem a outra. Desse modo, vimos que o sintoma histérico interroga no corpo e com o corpo.

Aqui, diríamos que o condutor de bonde tem dificuldades com a implicação subjetiva do sexo.

A partir de então, ao que tudo indica, esse homem têm duas formas de gozar: como homem e como mulher. “O que faz com que, clinicamente, ele nunca seja tão masculino quanto quando se pensa feminino, e nunca tão feminino quanto quando se pensa absolutamente viril” (WINTER, 2001, p.188). Assim, podemos dizer que o masculino ou feminino se refere para o sujeito as suas identificações internas.   Seria tolice se referir ao homem histérico como feminino, pois ele aparece tanto masculino, quanto feminino.

Nossa pesquisa nos trouxe mais questões do que respostas, então pensemos: será que tudo que aconteceu com esse sujeito – as dores no corpo, a demanda de amor, a feminilização do sujeito  – todas estas formas de indagar “o que é uma mulher?” não poderiam ser pensadas também como manifestações de um não-saber o que é um homem?

Em face de tudo isto, diríamos que, na singularidade desse caso, esse corpo faz discurso e, como discursos são laços, esse homem é também um corpo enlaçante, que enlaça outros e que se deixa enlaçar.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ELLENBERGER, H. The discovery of the unconscious: the history and evolution of dynamic psychiatry. New York: Basic Books, 1970.

FREUD, Sigmund. (1886a). Rascunho B: a etiologia das neuroses. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ESB). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996, vol.1.

______. (1908). Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade. In: ESB, op. cit. v.9.

______. (1919a). Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais. In: ESB, op. cit. v.17.

______. (1950[1892-1899]). Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. In: ESB, op. cit. v.1.

KELLER, T. Railway Spine Revisited: traumatic neuroses or neurotrauma? In: The Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, v. 50, n. 4, 1995.

LACAN, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

TRILLAT, E. História da histeria. São Paulo: Escuta, 1991.

WINTER, J. P. Os errantes da carne: estudos sobre a histeria masculina. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001.

Sandra Chiabi

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

cinco × cinco =