O corpo histérico

A histeria é estudada há milênios no mundo. Portanto, “A  histeria sempre existiu, em todos os lugares e em todos os tempos.”(Quinet, 2003)

Nesse contexto, Freud em diversos momentos (1856-1939), reconhece e enfatiza que apenas  a partir dos trabalhos clínicos  de Charcot e da escola de Salpêtrière, foi que a histeria passou a ser definida tanto em homens quanto em mulheres.  Sob esse prisma, constatamos que  anteriormente ao trabalho de Charcot, a histeria foi a bete noire da medicina. Somente Charcot poderia dar dignidade a histeria na clínica médica,  pois ele diagnosticou a histeria e a descreveu em quatro fases. Para Charcot, essas fases demonstram a  existência de sintomas fixos, isolados, transitórios ou em conjuntos. Além disso, Freud 1888 menciona que para Charcot  a sintomatologia da “grande histeria” ou “histeroepilepsia” (Freud, 1888; p.78), é composta  dos famosos pontos ou zonas histerógenas, tal como se fossem botões, pontos no corpo da histérica em que  você aperta  e desencadeia o ataque histérico.  Desse modo, na concepção charcotiana   o mamilo, a região ovariana e alguns pontos nas costas são considerados  zonas histerógenas. Entretanto, foi a partir das zonas histerógenas que Freud em 1905 desenvolveu a teoria sobre as zonas  erógenas.

Na Carta 52 a Fliess, de 1896, Freud fez referências às zonas erógenas, passíveis de serem estimuladas na infância, mas  em 1900 na Carta 128 ele menciona que está colhendo material para teoria sexual e aguarda que alguma centelha inflame  o material já acumulado. Mas essa centelha demoraria muito a surgir e Freud nada publicou de importante nos cinco anos que seguiram. Então essa centelha  se manifestou em seu texto Três ensaios sobre a sexualidade, (1905)  quando ele esclarece que qualquer parte do corpo, interna ou externa, pode ser uma zona erógena e que a erogenização do corpo é um dos fatores envolvidos na conversão.  Portanto na carne, no corpo vivo de um ser humano, o sujeito nasce banhado de linguagem, esvaziando-se  este corpo da sua carnalidade, constituindo um corpo sem órgãos, corpo a ser erogeneizado. ( Elia.1995) Nesse contexto, para a psicanálise o corpo é marcado por uma história erógena e somente a partir de 1905 Freud enfatiza que as zonas erógenas do corpo se deslocam.

Como vimos Freud desde o início da sua obra ocupou-se das questões ligadas ao corpo, uma vez que foi a partir do momento em que se voltou  para o enigma das pacientes histéricas que  pode formular a construção sobre a neurose de  histeria.

Nesse bojo, Freud destituído de lugar no saber médico, exclusivamente por afirmar que um sintoma histérico não apresenta lesão orgânica, foi com Freud que o sintoma histérico recebeu estatuto de mensagem.  De fato Freud 1888, define a histeria como uma neurose puramente nosografica, pela totalidade dos sintomas que ela apresenta.

Pois bem, ao considerarmos os enunciados de Freud sobre o sintoma histérico, verificamos o que reafirma Lacan 1975 em sua Conferência pronunciada em Genebra sobre o sintoma. Nesta, ele reafirma o postulado freudiano de que os sintomas tem  um sentido sexual e um caminho até a sua formação.

Nesse sentido constatamos que, a histeria não é definida pelo sintoma, de acordo com Freud no caso Dora, mas “pelo tipo de reação experimentada em matéria de gozo: o desprazer. (QUINET, 2005, p.112).Por conseguinte, a sensação de desprazer na histérica é definida por “Eckel “(repugnância, nojo). Asco e vergonha são os nomes do gozo histérico, segundo Freud” ( Freud,1905, p.168).

Além disso,  Freud (1926[1925]) nos explica que o sintoma é o resultado sempre de um conflito, pois ele representa a busca de  uma satisfação para a libido.  A libido insatisfeita vai procurar  uma saída para se satisfazer e por essa razão diríamos que o sintoma fala, joga com o equivoco da língua e, assim Quinet 2005 nos ensina: “O corpo é também a mesa de jogo entre consciente e o inconsciente, entre o sentido e o não sentido, entre a presença recalcante da razão e o retorno do recalcado.” (idem, ibidem, p.112)

Lembramos ainda que em 1897, no dia 2 de maio, Freud destaca que a neurose de histeria se constitui pela reprodução de cena que o sujeito endereça ao Outro. Com efeito  o sintoma histérico vai direto no corpo e está dissociado da consciência.  Portanto  Freud  pesquisou e analisou com detalhes o sintoma simbólico na histeria. O autor, expõe suas ideias em seu texto ” Algumas considerações para um estudo comparativo das paralisias orgânicas e histéricas” Freud (1893[1888-1893]) esclarecendo a distinção entre paralisias orgânicas e histéricas, abordando a paralisia histérica como um sintoma corporal na histeria. Ora, se o corpo é tecido de linguagem o ataque histérico corporal fala, pois  há algo inscrito no corpo que o sintoma revela. E, sendo o corpo erógeno, nele se conduz a história da sexualidade do sujeito. (Sadala, 2014)

Assim, o sintoma histérico deve ser decifrado, pois esse corpo  histérico revela a história do sujeito e para o analista afirmar que um sintoma físico é histérico é preciso comprovar sua origem psíquica, eis o que Freud ( 1893-1895) aborda desde seus Estudos sobre a histeria.

Rastreando o corpo na histeria, constatamos que nas lições XII e XIII de O seminário, livro 3, Lacan (1955-1956) comenta um antigo caso de histeria traumática, sem alucinações, em que a fantasia inconsciente de gravidez e de procriação surge em primeiro plano. Desse modo, gostaria de me deter, de modo breve, nesse caso, pois Lacan faz uso dele para desenvolver a questão da histeria nos homens.

Um homem de 31 anos trabalha no trem de condutor de bonde. O condutor de bonde cai do bonde e apresenta o sintoma conversivo de dores lombares que irradiam, subsequentemente à queda. No entanto, depois do acidente, começa a ter dores intensas que vão se espalhando cada vez mais. Essas dores, tanto para o médico, como para o paciente, constituíam-se em enigmas, pois os exames não encontravam justificativas para tanto. A partir de então, o departamento de neurologia encaminha esse homem para a psicanálise. O condutor de bonde, após narrar o acontecimento para o analista, revela que seu médico, após examiná-lo, menciona à sua mulher: “Eu não consigo perceber o que ele tem. Parece que, se ele fosse mulher, eu o compreenderia melhor” (LACAN, 1955-1956, p.200).

Estamos no campo da neurose e, em se tratando de um sujeito histérico, Lacan constrói uma relação de causalidade. Relação essa, não entre a queda e as dores, mas entre os exames radiológicos, destacando que foi por meio dos exames radiológicos que se desencadeou o enigma da neurose de histeria. De fato após o exame radiológico, ele continuava sentindo dor e ninguém entendia o que estava acontecendo. Então, foi necessário submete-lo à outros exames radiológicos e esta exposição de se despir diante do médico lhe causava a impressão de que o médico poderia fazer alguma manipulação em seu corpo. Trata-se, certamente, de uma fantasia de penetração que este homem tinha, cuja fantasia diz respeito a uma fantasia de gravidez. Em outras palavras, não foi o acidente que provocou o trauma, mas sim o que aconteceu durante o exame radiológico.  Ainda Lacan, assinala que o condutor de bonde tem interesse pela procriação de galinhas, no comércio  de ovos, e nas questões referentes à botânica. Com entender essas questões?

Nesse caso, concordamos com Quinet 2004 que talvez o nome desse homem possa ser “O homem das sementes”, por que o gozo dele está na questão da procriação de sementes, das galinhas,  da fertilização oral, e parto anal.  Desse modo para Lacan no seminário 3 (1955-1956),  a questão central da histeria masculina nesse caso, não é tanto sou homem ou sou mulher. A questão é que o sintoma histérico interroga no corpo: sou  ou não sou capaz de procriar? De onde vem os bebes? Como ser pai? Como ser mãe? Quem sou?  Podemos dizer que não é o sujeito que simula, é a histeria que simula, não é o sujeito histérico que simula estar doente é a histeria que pode simular todo tipo de doença.

Com isso o que aprendemos com o corpo na histeria? Aprendemos por exemplo  que:  o sintoma faz parte da história do sujeito, que é sustentado pela fantasia inconsciente, tem o seu valor de gozo, e pode ser decifrado.  Porém o corpo afetado na histeria, foi assinalado tanto por Freud quanto Lacan como uma inovação diante da medicina anatomo-fisiológica estabelecida pela ciência da época. Nesse ponto ressaltamos, que o corpo na histeria é regido por uma anatomia fantasmática, diferente da anatomia descrita pela medicina. No entanto, estamos hoje numa época pré- charcotiana que não considera a histeria , ela desapareceu dos DSMs.

Assim sendo  passemos a clínica  da histeria do século XXI, pois  como chega o sintoma histérico na clínica psicanalítica?

Sabemos  que a histeria muda de cara, muda as suas vestes, pois o sintoma corporal da histeria faz enigma.  A histeria responde  a sua época e o sintoma histérico  muda seu invólucro, pois fala-se de novas formas de sintomas histéricos como: fibromialgia e disfunção miofascial. De outra forma, também as conversões histéricas povoam o ambulatório clínico, os delírios e as alucinações histéricas, com a temática da possessão demoníaca,  estão constantemente assombrando as igrejas evangélicas, ou seja as histéricas hoje reproduzem a enfermaria de Charcot.  É o efeito hipnótico do significante, é um fenômeno de  massa.( Quinet, 2003-b)

Sendo assim, finalizamos  com Charles Làsegue [1816-1883]:

“a histeria jamais foi definida e é certo que nunca o será; seus sintomas não chegam a ser constantes, semelhantes ou iguais em duração e intensidade para que um tipo descritivo compreenda todas as suas variedades. (Bercherie -1983, p.61)


 

Referência bibliográfica:

Bercherie, Paul. Genèse des concepts freudiens. Les fondaments de la clinique II. Paris; Navarin, 1983, p.61.

Elia, L. Corpo e sexualidade em Freud e Lacan/ Rio de Janeiro: Uapê, 1995.

FREUD, S. (1893[1888-1893]). Algunas consideraciones com miras a un estúdio comparativo de las parálisis motrices orgânicas e histéricas. In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v. 1.

______. (1893-1895). Estudios sobre la histeria (Breuer y Freud). In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.2.

______.( 1900). A Interpretação dos Sonhos. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969/1974. Vol. IV.

______. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969/1974. vol. 7.

LACAN, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

_______. 1975 Conferência em Genebra sobre el sintoma. Em: Intervencions y

textos2.ob.cit.

QUINET, A. Histerias. In: Revista Stylus, n. 7. Rio de Janeiro: Editora Contra Capa, 2003(a)

________. A Grande histeria Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/ Rios Ambiciosos, 2003.(b)

________.O Retorno a Freud de Jacques Lacan: Os semblantes da histeria masculina. Seminário Formações Clínicas do Campo Lacaniano – RJ; 1˚ e 2˚ semestre/ 2004

________. A lição de Charcot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

 

Sadala, G. O que as histéricas dizem da homossexualidadeAs homossexualidades na Psicanálise: na história de sua despatologização /Antonio Quinet; Marco Antonio Coutinho( organizadores).- São Paulo Segmento Farma, 2013.

Sandra Chiabi

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

11 + onze =