O desejo na constituição do sintoma histérico

Lembremos que na história da histeria, quando os teólogos sustentavam o discurso do saber  sobre o homem, eram as histéricas que realizavam o papel das bruxas, feiticeiras, possuídas etc… Porém essa passagem da suposição do saber da religião para ciência foi o que arrastou a histérica da fogueira dos inquisidores para o consultório médico.  A partir de então, a medicina ganha novo fôlego e a cientificidade passa avançar um pouco mais em prol das histéricas. (TRILLAT, 1991).

Dando ênfase à histeria, constatamos que Charcot, permaneceu como mestre, tendo a hipnose como instrumento, daí o aspecto teatral. Somente Charcot poderia dar dignidade à histeria na clinica médica porque, até então, a histeria era considerada uma simulação.

A psicanálise, por sua vez, surge de um encontro: aquele que se dá entre Freud e o sintoma das histéricas. Como sabemos, a década de 1890 é considerada pré-psicanálitica e, no caminho da descoberta do inconsciente, Freud edifica uma teoria da sexualidade diferente daquelas que foram ordenadas pelos cientistas do século XIX. Assim, no que  se refere ao sintoma encontramos  a questão  do desejo, que mantém um ponto de interrogação, ou melhor um enigma.

Como nos ensina Quinet, 2003 a histeria não é somente um tipo de sintoma, cujos vestígios encontramos nos transtornos conversivos, mas sim um tipo clinico de neurose e além disso uma forma de laço social. Assim sendo, diríamos que o sintoma histérico ou   como menciona Soler, 1998  o corpo, como qualquer objeto do sujeito, é função dos discursos em ação, é função dos discursos que definem a civilização,   ponto que falaremos adiante.

Assim sendo, recordemos que a noção de sintoma percorre toda a obra de Freud e  a de Lacan, respondendo, a necessária elaboração de uma clínica em constante renovação.  (Pollo,2013)

Passemos então,  a definição lacaniana apresentada em O Seminário, livro5:as formações do inconsciente onde (LACAN, 1957-1958) diz que a descoberta freudiana desde o início deu ênfase no desejo.

(…)  O que Freud descobriu essencialmente, o que ele apreendeu nos sintomas, fossem estes quais fossem, quer se tratasse de sintomas patológicos, quer se tratasse do que ele interpretou(…)  como o sonho, por exemplo, foi sempre um desejo. […] precisamente no sonho (…) ele falou de satisfação do desejo. Ele indicou, por outro lado, que no próprio sintoma há alguma coisa que se assemelha a essa satisfação, só que […] é uma satisfação às avessas. (LACAN, 1957-1958, p. 331)

Nesse momento, verificamos que o que Lacan (1957-1958) chama de sintoma é tanto o sintoma mórbido quanto o sonho, ou qualquer coisa analisável. Ele realça que o sintoma apresenta-se geralmente sob uma máscara e de forma paradoxal.  Nesse seminário, livro 5 Lacan  ressalta que o sintoma histérico da paciente analisada por Freud, Elisabeth Von R,  nada mais era que um sintoma de conversão.

Elisabeth era ainda uma jovem que vinha sofrendo de dores nas pernas   há mais de 2 anos e que tinha dificuldades em andar. Quando o pai caiu doente, Elizabeth não deixou mais a cabeceira de seu leito. Ela se recorda que nesta época  sentiu pequenas dores na perna, entretanto só  depois da morte do pai passou a não poder efetivamente andar sem sentir fortes dores.

Constatamos que  Elizabeth em sua análise, lembra-se de um rapaz por quem foi enamorada e efetivamente do dia em que, tendo-se afastado do leito do pai doente para vê-lo, e contente por tal encontro, ao chegar de volta em casa encontrou o pai em estado grave de saúde. O conflito entre sua felicidade e o pai doente, produziu nela, segundo Freud, um desordem  psíquica.  ( Maurano, 1995)

Portanto Freud(1893- 1895), buscando encontrar  em sua paciente uma impressão psíquica ligada à  ocorrência das dores na perna,  observa que a região da  perna de Elizabeth de onde partiam as dores se referia ao momento em que ela trocava os curativos do pai, em outras palavras o seu pai  apoiava a perna para troca de curativos na própria  perna de sua filha.

Lacan (1957-1958) assinala, sobre  Elisabeth Von R., que Freud articulou a dor que a paciente sentia na coxa direita era o desejo de seu pai e de seu amigo de infância.  Com efeito, essa dor sobrevinha toda vez que a paciente evocava o momento em que estivera inteiramente submetida ao desejo de seu pai doente, à demanda de seu pai, enquanto se exercia, à margem, a atração do desejo do amigo de infância, que ela se censurava de levar em consideração. (LACAN, 1957-1958, p. 348).

Nesse texto de Lacan, entendemos que o sintoma que faz sofrer o neurótico constitui-se como uma metáfora da ideia intolerável que abriga o desejo proibido de satisfação. Além dessa observação, cabe aqui considerarmos que, para Lacan, é na interpretação do desejo que há manifestação do sintoma e é isso que, como já dissemos, quer dizer conversão. O desejo é igual à manifestação somática.

É preciso,  mencionarmos que o corpo histérico deve ser decifrado, pois esse corpo revela a história do sujeito e para o analista afirmar que um sintoma físico é histérico é preciso comprovar sua origem psíquica, eis o que Freud (1893-1895) aborda desde seus Estudos sobre a histeria.

O fato é que diante de tanto sofrimento, seja do sujeito de estrutura histérica, ou do sujeito homem que faz parte da civilização, Freud (1930[1929]) esclarece em O mal estar na civilização, o fato de a cultura produzir um mal estar nos homens. Em seu texto ele salienta que o sofrimento humano provém de três direções fundamentais: do próprio corpo, do mundo externo e, por fim, dos relacionamentos com outros homens.

Nesse contexto, Lacan chamou essas formas dos homens se relacionarem entre si de discursos como laços sociais. Para ele, cada discurso é uma modalidade de laço social. Em seu O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (LACAN, 1969-1970, p. 11), proclamou um dia que um discurso “é um discurso sem palavras”. Na verdade, o discurso pode subsistir sem palavras, porém não poderia se sustentar sem a linguagem.

Bem, sabemos que o que assina o êxito do discurso é o fato dos seus elementos ocuparem os seguintes lugares: o lugar do agente, o campo do outro, campo da produção e o lugar da verdade.

Desse modo, a teoria lacaniana coloca que o lugar do agente no discurso é o lugar do “dominante”, pois no nível do discurso da histérica esse “dominante” vem aparecer sob a forma de sintoma. Lacan (1969-1970, p.179) afirma: “o agente não é forçamente aquele que faz, mas aquele a quem se faz agir”.  Aqui podemos indagar junto com Lacan (1969-1970; p.182): “(…) o que é que põe em ação esse agente ?” De fato, é em volta do sintoma   histérico que se situa e se comanda tudo que é do discurso histérico. Cabe aqui recordarmos que Freud (S1) ao aceitar a histérica como seu mestre($), produziu um saber( S2) a psicanálise, em outras palavras foi a partir do discurso da histérica que se ordenou a teoria psicanalítica. Desse modo, a histérica pôs em primeiro lugar a questão do sujeito enquanto enunciador do discurso.

Conforme  mencionamos anteriormente, para Lacan ( 1969-1970), um discurso se sustenta a partir de quatro lugares, dentre os quais um, exatamente ficou sem ser nomeado – precisamente aquele que, pela função de seu ocupante, fornece o título de cada um desses discursos. Assim, no discurso histérico, o sujeito em sua divisão, fundador do inconsciente, encontra-se ali acomodado, no campo do agente.  Diríamos que o que assinala cada discurso é  então, aquilo que está no lugar do agente. Pensando sobre o que concerne esse lugar, isto é, o campo do agente, encontramos em Televisão uma interessante colocação de Lacan (1974, p. 524): “o discurso científico e o discurso histérico têm quase a mesma estrutura […]”. Em outras palavras, o discurso histérico é o que mais se aproxima do discurso científico. Assim sendo, que discurso histérico é esse? Qual o sentido dessa aproximação?

Parece-me, entretanto que neste lugar ou seja no campo do agente, está precisamente o sintoma histérico, no contexto do discurso histérico, governando, determinando e transformando todos os outros elementos. Desse modo, no contexto do discurso histérico, podemos indagar:  sujeito histérico, sujeito sintomático, inserido no campo do agente,  será  que é esse sujeito que fura todo saber sabido do discurso cientifico? Há de se considerar que o discurso da histérica, não é insignificante a ciência e isso  se deve à retomada do discurso do analista. ( Pollo, 2003). O artificio do sintoma histérico se manifesta igual ao da ciência: revestido pelo significante de um vazio ou de uma perda.

Aqui abro um parênteses, para ressaltarmos que o discurso médico é, validamente o discurso cientifico e, ele tem muita incidência sobre a vida diária. Por onde ele se desenvolveu, a histeria foi reconhecida, e pelo que ela  é em relação ao saber médico: ou melhor pode se assemelhar a todas as doenças sem ser nenhuma delas e que por esse fato, escapa ao saber constituído. Nesse  sentido, podemos dizer que os sintomas não remetem ao discurso médico ou cientifico, mas ao próprio sujeito. Até mesmo, por que segundo Lacan (1969-1970), o discurso tem uma referência especifica na ciência e, assim sendo, o discurso da ciência não deixa para o homem nenhum lugar. Mas, como seria  possível? Podemos verificar, que as histéricas são teóricas, como Elizabeth Von R e nesse sentido uma conversão histérica coloca um problema teórico. Mas qual seria esse problema? Entendemos que o sintoma conversivo traz um impasse e, ao mesmo tempo, uma criação. Efetivamente de um lado  o discurso médico recusa tratar dessa cena de horror, a qual está presente em um sintoma  de conversão. De outro lado percebemos que o avanço da ciência é motivado por esse sujeito sofredor, dividido e que não tem lugar para ser ouvido no discurso médico. Ora essa particularidade,  nos permite destacar que quanto mais o discurso médico ou seja a neurologia e a psiquiatria rejeitam os sintomas de conversões, mais esses sintomas colaboram com a criação da psicofarmacologia na produção de novos remédios, para novas doenças.

Para a psicanálise o sintoma,  é igualmente o que permite o sujeito sustentar sua singularidade no laço social.  É impossível avançarmos em psicanálise sem assumirmos a importância do sintoma histérico no contexto do discurso histérico ou melhor no contexto do discurso psicanalítico, pois acreditamos que o desejo de saber   se encontra no sintoma que o sujeito sustenta.

De fato, não apenas os seminários de Lacan, mas a psicanálise devolveu a histeria a verdade do sintoma, pois  Freud deixou, sob o nome de inconsciente, que a verdade falasse.

Assim sendo vimos que as formas dos sintomas mudam conforme o discurso dominante na civilização, mas as estruturas clinicas permanecem as mesmas. Ao que tudo indica, os histéricos estão presentes nos consultórios dos médicos e dos analistas retornando sempre com seus inúmeros sintomas.

Diante desse fato, observamos nesse movimento que a histérica almeja um mestre. Para quê? Para que ela reine e ele não governe. Dito de outro modo, para pô-lo a trabalhar, indicar-lhe a falta, e fazê-lo desejar. E por que não? – “fazer desejar, para completar com a definição o que caberia ao discurso da histérica, são operações que, falando propriamente, são impossíveis”( Lacan 1969-1970; p.183), foi o que Lacan observou  e, acrescentou aos impossíveis freudianos: educar, governar e psicanalisar.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, S. (1893[1888-1893]). Algunas consideraciones com miras a un estúdio comparativo de las parálisis motrices orgânicas e histéricas. In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v. 1.

_____. (1893-1895). Estudios sobre la histeria (Breuer y Freud). In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.2.

_____. (1930[1929]). El mal estar en la cultura. In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.21.

LACAN, J.   (1957-1958). O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

____. (1969-1970). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1992.

_____. (1974). Televisão. In: LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

MAURANO, D. Nau do desejo o percurso da ética de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará, 1995.

QUINET, A. Histerias. In: Revista Stylus, n. 7. Rio de Janeiro: Editora Contra Capa, 2003.

POLLO, V. Mulheres histéricas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2003.

POLLO, V. O palco da histeria. Trabalho apresentado em Hímeros, 2013.

TRILLAT, E. (1991). História da histeria. São Paulo: Escuta, 1991.

Sandra Chiabi

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