O Enlace entre a pulsão e o sintoma histérico

Ao considerarmos os enunciados de Freud sobre o sintoma histérico, verificamos o que reafirma Lacan em sua Conferência pronunciada em Genebra sobre o sintoma. Nesta, ele reafirma o postulado freudiano de que os sintomas tem  um sentido sexual e um caminho até a sua formação.  O sintoma é o companheiro sexual do sujeito.

Além disso, consideremos com Freud (1926[1925]) que o sintoma é o resultado sempre de um conflito, pois ele representa a busca de  uma satisfação para a libido. Sabemos que a libido insatisfeita vai procurar  uma saída para se satisfazer e por essa razão diríamos que o sintoma fala, joga com o equívoco da língua e, assim Quinet 2005 nos ensina: “O corpo é também a mesa de jogo entre consciente e o inconsciente, entre o sentido e o não sentido, entre a presença recalcante da razão e o retorno do recalcado.” (idem, ibidem, p.112 )

Segundo Quinet, 2014 o sintoma é um personagem à procura de um corpo. O sintoma escrito na mente,  é navalha,  que corta e dilacera  o corpo. O sintoma é indício de doença e, uma indicação de um sujeito. O sintoma é um compromisso entre desejo que não quer calar e uma censura que não o deixa o expressar. Assim, basta estar vivo para o sintoma expressar-se.

Freud em 1908“As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”   escreve que o sintoma é a encenação de uma fantasia inconsciente, a serviço da realização de desejo.   O sintoma histérico nos prova, que o corpo é lugar de inscrição  do sintoma. Segundo o ensino lacaniano, o sintoma histérico quando não consegue falar grita por todos os poros do corpo. Portanto, o sintoma histérico deve ser decifrado, pois este não obedece a anatomia descrita pela medicina. O sujeito histérico, nas suas manifestações somáticas, desconhece a anatomia e a fisiologia do sistema nervoso. Isso significa que o corpo  não  é feito somente de ossos., mas  também de significantes. Logo o sintoma histérico é sensível às expressões mais triviais da língua.

Por isso, ao  longo da história da histeria, Freud analisou com detalhes o sintoma na histeria, e  para o analista afirmar que um sintoma físico é histérico é preciso comprovar sua origem psíquica, isto é, sua determinação significante e a causalidade de gozo ( figurada na fantasia) que o sustenta, eis o que Freud ( 1893-1895) aborda desde seus Estudos sobre a histeria.

Pois bem, antes de  enlaçarmos  a pulsão com o sintoma histérico, devemos ressaltarmos, a fantasia.  A fantasia na obra freudiana, está na fundação das neuroses, e é a precursora  mental dos penosos sintomas. O sintoma histérico é amparado por uma fantasia, (como todo sintoma neurótico) em que o sujeito é o objeto sexual do Outro.

Nesse sentido,  Freud em 1905 nos “Três ensaios” inaugura o conceito de pulsão pelo víeis do inconsciente,  e consequentemente aborda a fantasia nos mais diferentes ângulos. Especialmente  na histeria  constatamos que no sintoma, temos a expressão da fantasia histérica. No entanto, é preciso ressaltarmos que o conceito de pulsão foi construído ao longo do toda obra freudiana. Nesse contexto, enfatizaremos a pulsão escópica, pois Freud observou desde a descoberta do inconsciente, que a fantasia pode situar-se no nível escópico da pulsão.

Lacan 1964 “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise,” menciona que a pulsão escópica não tem representação a nível inconsciente. A pulsão escópica não é como a pulsão oral e a pulsão anal, que se apoiam na demanda. A pulsão escópica  jamais se apoia em função fisiológica, pois ela não tem ligação com que o equivaleria  da ordem da necessidade. Já  as pulsões oral e anal atravessam o registro da fala e, por conseguinte, do significante. Para tanto, isso não  acontece com a  pulsão escópica nem com a  pulsão invocante: o olhar e a voz.  ( Quinet,2004)

É preciso considerarmos que na pulsão escópica o objeto é  o olhar; o olhar que é o sujeito, que o atinge, “que faz  mosca tiro ao alvo”( Lacan 1964; p.179). O olhar é o objeto perdido, e de súbito reencontrado, na conflagração da vergonha, pela entrada do outro. Mas o que o sujeito procura ver? Para Lacan 1964, o sujeito procura ver o objeto  enquanto ausência.   O que ele procura não é, como se diz, o falo- mas a sua ausência. O que se olha é aquilo que não se pode ver. Como pondera Quinet, 2004; p.69 um olhar não se pede- ele se comparece ou não.

Portanto, não há significantes específicos para a pulsão escópica, do mesmo modo que não há inscrição no inconsciente, só se for pelo empréstimo dos significantes das pulsões ligados à demanda do Outro ou à demanda ao Outro, isto é, oralidade ou analidade: comer com os olhos ou dar um espiadela.  ( Quinet,2004)

Freud em 1905 “ Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”  não faz corresponder à pulsão escópica  a nenhuma fase do desenvolvimento libidinal. Para Freud 1905, todas as crianças são voyeurs, e assim “Não há fase escópica”, o  escopismo está sempre presente; ele é atemporal. Além disso, a pulsão escópica prescinde da fala,  mas não existem palavras para descrever o olhar.( Quinet, 2004).

Portanto os distúrbios visuais e a afonia de Dora quadros clássicos da histeria, são dois exemplos  dispares  que nos mostram o enlace da pulsão com o sintoma histérico.

Freud em 1910 evoca  mitos e lendas para ilustrar a cegueira lendária de Peeping Tom, o alfaiate que ficou cego por ter espionado  a nudez de Lady Godiva. Nesse artigo em 1910 “ A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão “ Freud menciona que as pessoas que ficam cegas em  virtude de histeria vêem, não  obstante, em certo sentido, mas não completamente.  As excitações no olho cego podem provocar certas consequências psíquicas “As pessoas histericamente cegas só o são no que diz respeito à consciência, em seu inconsciente elas vêem”.(Freud,1910; p.210)

Em 1040 Leofric, Conde de Mercia e Lord de Coventry, impôs certas taxas a seus locatários, e sua mulher, Lady Godiva, rogou-lhe que as abolissem. Para abalar sua  lady, o Lord prometeu-lhe fazê-lo se ela cavalgasse nua pela cidade. Lady Godiva não recuou

Freud 1910,  diz que a bela lenda de Lady Godiva revela o momento em que todos os habitantes se esconderam e fecharam suas cortinas, a fim de tornar mais fácil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas, em pleno dia. Entretanto um único homem espreitou pelas venezianas, não obedecendo à  regra.  Assim enquanto espiava a beleza da nudez de Lady Godiva, instantaneamente foi invadido de uma cegueira.  Esse  alfaiate foi chamado a partir desse momento de Peeping Tom of Coventry , pois Peeping Tom é o termo que se aplica para designar o voyeur em inglês.

Quinet, 2004; p.199 nos explica que “Nessa lenda, o desejo vinculado à proibição e à satisfação da pulsão, obtida na transgressão- o preço desse gozo é a cegueira. (…) A beleza resplandecente da nudez  da Lady o fulminou. Quem é o observador, quem é o observado nesse caso? (…) o sujeito desvaneceu-se diante do objeto: ele vira puro olhar. (…) a pulsão na neurose se satisfaz no sintoma apontando o gozo escópico (…), o prazer da vista, a fruição do espetáculo”.

Pois bem, já que a pulsão se satisfaz na sintoma , Freud  em ( 1905 [1901])  nos mostra que  a afonia de Dora seria provocada pela ausência de Sr. K., sua interpretação formulando-se no emunciado “ A palavra perder o valor, já que ela não poderia falar com ele.”  Para Lacan  o que o motivava não era a ausência do Sr. K., mas a presença da Sra. K. Exatamente quando o Sr, K ia embora, ela ficava sozinha com a Sra. K, seu objeto de paixão. Dora diante do objeto de desejo fica calada, sem fala. Podemos dizer, que  a presença da encarnação do objeto do desejo fez o sujeito emudecer.

Lacan em seu Seminário 3, (1955-1956),  conta que Freud explica de uma forma muito bela afonia de Dora.- ela não tem necessidade de falar uma vez que ele já não está ali, basta apenas escrever.  A afonia sobrevém porque Dora é deixada em presença  da Sra. K. Tudo o que ela pôde entender das relações desta com seu pai gira em torno da felação, e aí está algo de infinitamente mais significativo para compreender a intervenção de sintomas orais.

Quinet, 2003 chama atenção que o sintoma da afonia de Dora indica uma satisfação oral ao fantasiar o pai nesse tipo de relação sexual com sua amante, a Sra. K, em quem ela amava seu próprio  enigma de ser mulher. Essa fantasia é o significado sexual do sintoma, é essencialmente falando patológico, na medida em que o sujeito está padecendo  do sexo e busca, com essa resposta sintomática, responder à interrogação do desejo que se comparece como desejo do outro.

Finalizando, diríamos que  para Dora,  toda sua história permeia nessa oscilação em que ela não sabe se não ama senão a si mesma, sua imagem exaltada na Sra. K, ou se deseja a Sra. K. Assim, Dora não sai disso, porque essa oscilação se produz sem cessar, e essa báscula é perpétua.( Lacan1953-1954) . De outro modo, para o alfaiate Peeping Tom  o “ O ônus é a perda da visão”.  Lá onde surge o olhar, apaga-se a visão.   ( Quinet, 2004).


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 Freud. (1893-1895). Estudios sobre la histeria (Breuer y Freud). In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.2.

______. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969/1974. vol. 7.

__________.(1905)   “Fragmento de análisis de un caso de histeria”. In. Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.7.

_______. (1908) Las fantasias histéricas y su relacion con la bissexualidade. Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.9.

_______.(1910).La pertubación psicógena de la vision según el psicoanálisis. Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.11.

_____. (1926). Pueden los ejercer el análisis? In: Obras de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 2011.v.20.

LACAN,J. ( 1953-1954). O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.

LACAN, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

________.( 1964). O Seminário, livro 11. Os quatros conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

QUINET, AA descoberta do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

_________.   A lição de Charcot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

__________.  Um Olhar a Mais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

_________. O sintoma: variações freudianas. São Paulo: Giostri,2014

Sandra Chiabi

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