A ETIOLOGIA SEXUAL DA NEUROSE

Em 1914, no artigo A história do movimento psicanalítico, Freud relata com convicção a sua descoberta sobre a etiologia sexual das neuroses, e vai defendê-la em uma reunião da Sociedade de Psiquiatria e Neurologia de Viena, conduzida por Krafft-Ebing (FREUD, 1886c). Nela, Freud esperava que suas descobertas fossem bem aceitas, mas, ao apresentá-las, ora o silêncio, ora as insinuações que lhe eram dirigidas, apontavam que suas afirmações poderiam promover cisões no seio do movimento psicanalítico. Mesmo assim, Freud (1896c) manteve-se firme em suas observações e conclusões:

“Para causar a histeria, não basta ocorrer na vida do sujeito um evento relacionado à vida sexual e que se torne patogênico pela liberação e supressão de um afeto aflitivo. Pelo contrario, tais traumas sexuais devem ter ocorrido na tenra infância, antes da puberdade, e seu conteúdo deve consistir numa irritação real dos órgãos genitais (por processos semelhantes à copulação)”. (FREUD, 1896c, p.164).

Nessa ocasião, ele já havia descoberto a “passividade sexual durante o período pré-sexual” (idem, ibidem, p.164), em todos os casos de histeria, inclusive em dois casos de homens analisados. Para dar continuidade às suas elaborações, Freud buscou recursos na teoria do recalque e na transferência (das forças motivadoras da neurose e do inconsciente), levando em consideração a amnésia histérica.

“Também na histeria existe uma possibilidade similar de penetrarmos, a partir dos sintomas, no conhecimento de suas causas. Contudo para explicar a relação entre o método que temos de empregar para esse fim e o antigo método da investigação anamnésica, eu gostaria de expor aos senhores uma analogia baseada num avanço real efetuado em outro campo de trabalho”. (FREUD, 1896b, p.190).

Ele compara a investigação da causa da histeria com a de um explorador que chega a uma região não muito conhecida e seu interesse é despertado por uma grande área de ruínas, com restos de paredes, colunas e lápides com inscrições um pouco apagadas e ilegíveis. Existem, nesse momento, duas possibilidades de investigação. A primeira pode contentar-se em inspecionar o que está visível, em interrogar os residentes que moram por ali – “talvez uma população semibárbara” – sobre o que a tradição lhes diz a respeito da história e das marcas desses resíduos arqueológicos, em anotar o que eles dizem e seguir em frente. Outra possibilidade seria o explorador levar consigo material de trabalho como pás, picaretas etc., colocando os habitantes para trabalharem com esses instrumentos. Todos juntos podem dirigir-se para as ruínas, retirar o lixo e, partindo dos resíduos visíveis, podem descobrir o que está enterrado. E se seu trabalho for coroado com êxito, as descobertas se explicam por si mesmas (idem, ibidem).

Utilizando-se dessa metáfora, Freud (ibidem) escreve sobre a descoberta de Breuer: “Os sintomas das histéricas (à parte os estigmas) são determinados por certas experiências do paciente que atuaram de modo traumático e que são reproduzidas em sua vida psíquica sob a forma de símbolos mnêmicos” (FREUD, 1896b, p.190). Freud destaca que, para investigar as causas do sintoma, deve-se retroagir do sintoma até a cena na qual ele surgiu, pois, quando se localiza a cena, existe a possibilidade de se eliminar o sintoma. Freud conclui que as análises conduzidas por Breuer abriram caminhos para a descoberta das causas da histeria, mas o caminho que vai dos sintomas da histeria até a etiologia foi muito tortuoso e passou por conexões diferentes.

Conforme postula Freud (1896b), a atribuição de um sintoma histérico à cena traumática apenas nos auxilia quando a cena atende a duas condições: quando possui adequação para funcionar como determinante e quando reconhece a necessária força traumática:

“(…) encontramos realizada uma de três outras possibilidades muito desfavoráveis à compreensão: ou a cena a que somos conduzidos pela análise e na qual o sintoma apareceu pela primeira vez parece-nos inadequada para determiná-lo, no sentido que seu conteúdo não tem nenhuma relação com a natureza do sintoma; ou a experiência supostamente traumática, embora tenha de fato uma relação com o sintoma, revela ser uma impressão normalmente inócua (…), ou finalmente, a “cena traumática” nos deixa às escuras em ambos os aspectos, (…) inócua e sem relação com o caráter do sintoma histérico”. (idem, ibidem, p.192).

Entendemos que se a lembrança que vem à tona não atende à expectativa, deve-se prosseguir, porque é possível que por trás da primeira cena traumática esteja a lembrança de uma segunda cena que satisfaça melhor aos requisitos investigados. Encontramos na obra freudiana um exemplo no qual a análise remonta a essa questão:

“Um susto decorrente de um acidente ferroviário – uma cena à qual faltava adequação como determinante. A análise posterior mostrou que esse acidente despertara no paciente a lembrança de outro acidente anterior, que na verdade ele próprio não vivenciara, mas que lhe dera a oportunidade de ter uma visão medonha e repulsiva de um cadáver”. (idem, ibidem, p. 193)

Cabe lembrar que Freud foi obrigado a inventar exemplos fictícios para enfatizar que:

“A cadeia de associações tem mais de dois elos; e as cenas traumáticas não formam uma corrente simples, como um fio de pérolas, mas antes se ramificam e se interligam como árvores genealógicas, de modo que, a cada nova experiência, duas ou mais experiências anteriores entram em operação como lembranças”. (FREUD, 1896b, p. 194)

Freud (ibidem) ressalta que nenhum sintoma histérico pode surgir apenas de uma única experiência real, mas, em todos os casos, a lembrança das experiências antigas manifestadas em associação com ela atua na causação do sintoma. Devemos considerar que quando uma análise vai além, as cadeias associativas pertencentes aos diferentes sintomas começam a se relacionar umas com as outras e as árvores genealógicas se interpenetram.

Contudo, o autor explica que a sua descoberta mais importante se deve ao momento em que uma análise é conduzida, independentemente do sintoma que foi tomado como ponto de partida; do percurso vamos sempre nos deparar com o campo da experiência sexual. Diríamos que foi aí que Freud descobriu uma precondição etiológica dos sintomas neuróticos.

Freud (1896a) comenta que a escolha do fator sexual na etiologia da histeria não procede de nenhuma opinião preconcebida, pois a proposição de que a etiologia da histeria repousa na vida sexual do sujeito foi confirmada através de dezoito casos de histeria conduzidos por ele. Freud também ousou dizer que, por meio de muitas investigações e estudos, encontrou no campo da sexualidade experiências que provavelmente ocorrem em sua maior parte na puberdade:

“Provavelmente em virtude de alguma predisposição hereditária ou atrofia degenerativa, nas quais um retraimento de sexualidade, que normalmente ocorre na puberdade, é elevado a um grau patológico e é permanentemente mantido; são (…) pessoas psiquicamente inaptas para atender às exigências da sexualidade. Essa concepção, é claro, deixa sem explicação a histeria masculina”. (idem, ibidem, p.198).

Ao longo de seu texto, Freud conclui que as lesões sofridas na infância ou por um órgão em processo de desenvolvimento causam efeitos mais graves e duradouros do que causariam em época mais madura. Portanto, a reação anormal às impressões sexuais que os sujeitos histéricos manifestam na fase da puberdade, têm sua origem em experiências sexuais na infância. Agora podemos dizer que o que Freud atribuía anteriormente a uma predisposição hereditária, passa a ser compreendido no sentido de algo que foi adquirido em tenra idade: “na base de todos os casos de histeria, há uma ou mais ocorrência de experiência sexual prematura, ocorrências estas que pertencem aos primeiros anos da infância, mas que podem ser reproduzidas através do trabalho da psicanálise” (idem, ibidem, p.200).

Em A história do movimento psicanalítico, Freud (1914) menciona que, em 1909, em uma universidade norte-americana, durante uma conferência que proferira, declarou que não havia sido ele quem criara a psicanálise, mas sim Joseph Breuer. Porém, alguns amigos criticaram-no por essa declaração e, após alguns anos, surgiu a primeira divergência entre Freud e Breuer. Tais fatos lhe permitiram enunciar o que Breuer havia dito de sua paciente: que o elemento de sua sexualidade não estava desenvolvido e em nada contribuíra para seu quadro clínico. Ele busca a razão pela qual esta afirmação não fora usada contra ele pelos críticos.

Como podemos ver, diante de tantos obstáculos, Freud examina os pontos que o levaram a tal descoberta e, na busca de conhecimentos, surge como inovação teórica A interpretação dos sonhos (FREUD, 1900). Segundo ele, este livro foi um alívio e um apoio aos árduos primeiros anos do trabalho de análise, pois nesse momento precisava dominar a técnica. Sozinho e com acúmulo de dificuldades, sentiu medo de perder a confiança em si mesmo. Suas hipóteses em relação às neuroses deveriam se confirmar através das análises em andamento, mas essas se arrastavam por um período desesperador. No entanto, os sonhos dos pacientes relatados nas sessões quase sempre confirmavam suas hipóteses sobre a neurose, sua etiologia sexual (FREUD, 1914).

Em Um estudo autobiográfico, Freud (1925[1927]) revê muito do que já tinha sido tratado em seu artigo A história do movimento psicanalítico (FREUD, 1914). Nele, chama novamente a atenção para as teorias da resistência e do recalque, que dão um significado à etiologia sexual e são bastante importantes no que se refere às experiências infantis. Freud observara que muitos pacientes haviam esquecido os fatos da sua vida e concluíra que tudo que o paciente esquecera era penoso ou vergonhoso de acordo com os padrões da personalidade de cada um. De modo que precisavam se esforçar para superar algo contra o qual lutavam, a fim de tornar consciente o que fora esquecido. O próprio Freud percebeu que estava diante do recalque, cuja teoria veremos adiante. Dessa maneira, a psicanálise conseguiu alcançar uma nova escala de valores no pensamento científico. Assim, pouco a pouco, Freud passou a controlar as tendências especulativas e lembrou-se do conselho de Charcot: “olhar as mesmas coisas repetidas vezes até que elas comecem a falar por si mesmas” (idem, ibidem, p.32).

Na história da psicanálise, proposições que desde o início só despertavam oposições, como a etiologia sexual das neuroses, vieram posteriormente a ser aceitas, como veremos no percurso desta dissertação. Freud (1898) esclarece no artigo A sexualidade na etiologia das neuroses:

“Erramos ao ignorar inteiramente a vida sexual das crianças; segundo minha experiência, as crianças são capazes de todas as atividades sexuais psíquicas, e também de muitas atividades somáticas. Assim como a totalidade do aparelho sexual humano não está compreendida nos órgãos genitais externos e nas duas glândulas reprodutoras, também a vida sexual humana não começa apenas na puberdade, como poderia parecer a um exame superficial. Contudo é verdade que a organização e a evolução da espécie humana se esforçam por evitar uma ampla atividade sexual durante a infância”. (FREUD, 1898, p.266).

Podemos dizer que Freud questionava ininterruptamente a teoria a partir de sua clínica, método que constitui um legado precioso deixado aos analistas. Ainda hoje, os casos trabalhados por ele e retomados por Lacan, permanecem fonte inesgotável de estudos para quem quer que se interesse pela psicanálise.

Sandra Chiabi

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